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O Project Blue Critical Materials Forum London 2026, realizado em 20 de outubro na capital britânica, consolidou-se como um dos principais pontos de encontro globais para analistas de mercado, traders, produtores e formuladores de políticas dedicados às cadeias de suprimentos de materiais críticos. Sob o tema central “The Shifting Critical Material World Order”, o evento apresentou um diagnóstico estrutural de como seis vetores — desenvolvimento econômico, eletrificação e segurança energética, novas tecnologias, geopolítica, reindustrialização e fluxos de capital — estão redefinindo simultaneamente a oferta e a demanda de dezenas de commodities estratégicas.
Os dados apresentados pelos analistas da Project Blue e pelo convidado Jan Giese, fundador da Critera GmbH, mostram uma bifurcação sem precedentes nos preços de terras-raras: o óxido de disprósio negociado em armazém em Rotterdam atingiu US$ 4.500/kg em 15 de outubro de 2026, contra US$ 1.265/kg no FOB China, uma diferença de 1.700% derivada dos controles de exportação chineses reintroduzidos em abril de 2025. A dependência global, embora atenuada a montante (de 97% em 2010 para 69% hoje na mineração), deslocou-se downstream: 84% do refino de ímãs de terras-raras permanece na China.
O caso do óxido de disprósio (99,5% min.) ilustra com nitidez a volatilidade que define o mercado de terras-raras. Em julho de 2010, a redução das cotas de exportação chinesas — que então abasteciam cerca de 97% do mercado global — detonou um movimento de compra de pânico. Entre janeiro de 2009 e agosto de 2011, o preço subiu aproximadamente 2.500%, atingindo US$ 2.377/kg. A correção foi igualmente dramática: entre agosto de 2011 e dezembro de 2015, o preço caiu 91%, vitimando produtores ocidentais como a Molycorp, cuja falência em junho de 2015 simbolizou o colapso do modelo de negócio construído sobre o pico.
Em abril de 2025, em meio à disputa tarifária com os Estados Unidos, a China reintroduziu controles de exportação — desta vez por meio de licenciamento, sobre sete terras-raras pesadas. A expansão de outubro de 2025 (suspensa até novembro de 2026) consolidou um mercado de dois níveis: dentro da China, os preços mal se moveram; no mercado spot fora da China, o disprósio saltou para US$ 4.500/kg em 15 de outubro de 2026 — 1.700% acima do FOB China de US$ 1.265/kg.
A comparação entre 2010 e 2026 revela, contudo, diferenças estruturais importantes. A dependência a montante recuou (de 97% para 69% na mineração), mas migrou downstream: hoje 84% do refino de ímãs de terras-raras permanece na China. A reação política fora do país também foi mais forte e mais diligente — os US$ 250 milhões que o Japão aportou na Lynas em 2011 (empréstimo e participação acionária) tornaram-se US$ 400 milhões em participação acionária americana na MP Materials, com preço mínimo garantido (price floor) por 10 anos.
A China que reintroduziu os controles de exportação em 2025 não é mais a fornecedora de commodities da virada do milênio. Os dados do Banco Mundial mostram que a participação chinesa no valor adicionado da manufatura mundial subiu de 18%, em 2010, para 28%, em 2024. O peso do PIB chinês no total mundial saltou de 9% para 16% no mesmo período, e a relação PIB China/EUA passou de 41% para 63%. Esse ganho de peso muda a alavanca geopolítica de Pequim em qualquer disputa de cadeias de suprimentos.
Essa transformação reflete-se na pauta exportadora. Os planos estatais para os veículos elétricos, tratados como indústria estratégica desde 2010, funcionaram: o valor das exportações chinesas de carros de passeio (HS 8703) cresceu 50 vezes entre 2010 e 2025, saltando de US$ 1,4 bilhão para US$ 110 bilhões, com mais valor adicionado permanecendo no país.
O dado mais revelador dessa estratégia vem das estatísticas alfandegárias chinesas: em 2026 (jan-ago, anualizado) versus 2024, as exportações de ímãs permanentes cresceram 8% (atingindo 2,7 vezes o volume de 2015), enquanto as exportações de disprósio despencaram 54% e as de térbio, 78%. A China exporta o produto acabado e retém a matéria-prima — uma arquitetura que maximiza a captura de valor e minimiza a exposição a controles externos.
A consolidação do controle sobre o setor foi longa e deliberada. Em 2012, as licenças de mineração foram cortadas de 113 para 67. Em 2016, o “Big Six” consolidou a indústria. Em 2021, formou-se o China Rare Earth Group (CREG). Em fevereiro de 2024, apenas dois grupos estatais detinham cotas de mineração e fundição. Em outubro de 2024, entrou em vigor regulamento que impõe propriedade estatal, controle de volume e rastreabilidade. Os controles de exportação de 2025 não foram surpresa: foram preparados ao longo de mais de duas décadas.
Os padrões de comércio de concentrado de cobre estão se redesenhando. As rotas chinesas e não-chinesas divergem: em 2024, 39% do concentrado seguiu para um destino e 26% para outro, contra 35% e 25% anteriormente — números que refletem tanto a expansão da capacidade de fundição chinesa quanto a busca de diversificação por compradores ocidentais. A descoberta de preços, antes unificada em torno de um benchmark global liderado pela China, fragmenta-se em quatro camadas: índice global, mercado spot dominado pela China, índice de preço, mercado bilateralmente negociado e índices regionais.
A perspectiva de tarifas americanas ampliou o spread entre COMEX e LME, sustentando uma arbitragem de importação e provocando uma redistribuição anormal dos estoques globais — com estoques americanos fora da bolsa (off-exchange) crescendo enquanto estoques de outras regiões nas bolsas recuam. A reciclagem ganha espaço: 26% em 2020, 37% em 2025. Mas a política pode reverter essa tendência — a UE aprovou novas regulações de embarque de resíduos e os EUA emitiram proclamação sobre cobre de sucata, o que pode restringir 375 kt de cobre em sucata exportados da Europa para a China.
Os preços e a política têm, finalmente, apoiado novos investimentos. O fórum identificou 640 kt de capacidade em projetos estratégicos privados e 725 kt adicionais provenientes de investimento governamental direto — um sinal de que a resposta de oferta, embora lenta, está em curso. A questão colocada por Pickens é se essa resposta será rápida e geograficamente diversificada o suficiente para acompanhar a demanda de eletrificação, ou se reproduzirá a dinâmica de dois níveis já vista nas terras-raras.
Jessica Roberts, da Project Blue, mapeou os novos drivers de demanda que ganharam peso desde a LME Week 2025. A inteligência artificial lidera a lista: chips, data centers, infraestrutura de energia, armazenamento e máquinas habilitadas por IA puxam, cada um, uma cesta distinta de materiais críticos.
Um dos pontos mais relevantes da apresentação foi o estudo de caso de High Purity Alumina (HPA): chips de IA exigem matérias-primas de pureza substancialmente maior do que as demandadas pela eletrônica convencional, abrindo uma janela de oportunidade para produtores capazes de atender a essas especificações. Os atrasos na conexão de data centers à rede elétrica, por sua vez, estão impulsionando a demanda por turbinas a gás aeroderivativas — e os materiais que as compõem.
A defesa emergiu como o segundo grande driver. Fuselagens e motores de aeronaves, inclusive militares, utilizam muitos dos mesmos materiais da cadeia de IA: titânio, alumínio e ligas de níquel-cobalto. O estudo de caso do tungstênio mostrou os Estados Unidos buscando ativamente garantir cadeias domésticas de suprimento — um movimento que deve se repetir para outros materiais.
Os semicondutores foram apresentados como ativos críticos de defesa nacional e segurança estratégica, e não apenas como insumos industriais. Wafers de 12 polegadas ganham participação ano a ano, consolidando uma tendência de densidade crescente. A pergunta deixada no ar — “can the West stand alone in critical minerals?” — sintetiza a tensão central: a reindustrialização pretendida pelo Ocidente depende de materiais cujas cadeias ainda passam majoritariamente pela China.
A análise consolidada por Jan Giese, da Critera, em colaboração com a Project Blue, concluiu que um retorno pleno às condições de mercado de 2010 é improvável. Os reflexos são os mesmos — pico de preço, medo no mercado, financiamento estatal fora da China e dependência persistente em relação à China. Mas a situação subjacente mudou em quatro dimensões críticas: o controle foi construído desde 2002; a China responde por 16,5% do PIB mundial, não mais 9%; o país exporta produtos acabados e retém matérias-primas; e os rivais pagam mais, enquanto a China captura valor downstream.
A avaliação probabilística apresentada no encerramento do fórum atribui baixa probabilidade a um retorno total ao cenário de 2010 e probabilidade possível a uma flexibilização parcial e seletiva dos controles — ou seja, Pequim pode aliviar restrições em materiais específicos quando isso atender aos seus interesses comerciais, sem desmontar a arquitetura de controle construída ao longo de duas décadas. Para produtores, consumidores e investidores, a recomendação é única: planejar explicitamente para segurança de suprimento, diversificando fontes, antecipando contratos de price floor e monitorando continuamente os sinais de política chinesa.
Para o Brasil, as implicações são duplas. De um lado, o país é parte do esforço de diversificação — com projetos em terras-raras, nióbio, lítio, grafita e cobre que se beneficiam da reindustrialização ocidental. De outro, a volatilidade dos preços de materiais críticos e a fragmentação dos mercados regionais exigem inteligência de dados sofisticada para tomar decisões de investimento e de comercialização.
A Project Blue é uma provedora de inteligência de mercado para mais de 50 cadeias de suprimentos de materiais críticos. Em 2027, promove conferências em Munique (veículos elétricos e baterias, 23 e 24 de fevereiro) e em Washington (aeroespacial e defesa, 17 e 18 de maio). A Brasil Mineral e a Project Blue mantêm parceria editorial. Mais informações em www.projectblue.com.
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